Mas então a febre country é real?

Um dos primeiros posts desse blog, lá em maio, brincava com o fato de que o country tinha voltado. Mas, menina… e não é? Escute os sinais. Além de tudo aquilo que de fato falei naquele post, tem mais, contando certo movimento de country rap (!) com um interessante artista chamado Lil Nas X que, em pouco tempo, trouxe Billy Ray Cyrus (sim, ele mesmo, o pai da Miley) de volta às paradas e ao mesmo tempo saiu do armário. Eita!

Nesse clipe já tem a versão “atualizada", que conta com Billy Ray e Diplo, mais um sample de Nine Inch Nails (quem diria); e Lil Nas brinca com essa coisa de se vestir de caubói hoje. O hit é um fenômeno que está faz 14 semanas na parada da Billboard. O segredo: além de juntar o trap com o country, a música virou desafio no aplicativo fenômeno TikTok. Misturas explosivas.

Na passarela em si, durante a Casa de Criadores, a gente viu sinais bem calcados da mistura do street com o country. Você reparou? Vem:

country-ken-ga.jpg

Clube Irmã Caminhoneira

Franjas e jeans na Ken-gá. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

country-jal-vieira.jpg

Franja do sertão

A leitura da seca sertaneja de Jal Vieira passa por franjas na bolsa e muita cortiça e navalhados. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

country-rafael-caetano.jpg

Para dançar isso aqui é bomber

As jaquetas de Rafael Caetano ganham recortes e franjas country. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

country-rober-dognani.jpg

These boots are made for walking

Os romeiros de Rober Dognani usam bota de caubói. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Mais do que um country rústico à Marlboro, esse novo country está mais conectado com a ostentação de Nudie Cohn. Sabe quem é ele? Talvez um dos estilistas ucranianos mais famosos de todos os tempos, Nudie chegou nos EUA aos 11 anos e é um selfmade man. Nudie's Rodeo Tailors é parte essencial da estética da música popular americana!

nudies-logo.jpg

A estética de Nudie é superinfluente até hoje, do look de Diplo naquele post anterior até Elvis Presley em si.

nudie-elvis.jpg

We are golden

Lookinho discreto: esse é o Nudie Cohn com Elvis Presley em si, na seção de fotos da capa do álbum 50,000,000 Elvis Fans Can't Be Wrong

Quer mais? Pois não:

Essa prática de aplicação de bordados tem tudo a ver com o movimento de upcycling e customização que volta à cena agora, na necessidade de uma imagem fashion para a sustentabilidade. Os recortes de camisa de caubói também me parecem uma boa opção para reaproveitamento de resíduo têxtil.

O country, um dos símbolos do conservadorismo, tem sido colocado de cabeça para baixo. Kacey Musgraves, por exemplo, ganhou um Grammy incluindo coisas em sua música que aparentemente não passariam incólumes num rodeio. Ela tem sido encarada como mais uma para quem não conhece tão bem seu trabalho, e não deveria… Você fica sabendo mais sobre Kacey nesse link, num ótimo artigo do The Guardian. E olho também na Kesha, outra que usa o country como ferramenta para mensagens de igualdade e quebra de padrões.

Nudie morreu mas seu legado continua vivo, principalmente com sua neta Jamie Nudie. Saiba mais no vídeo abaixo, da Vice:

E resumindo: em caso de sensação febril, acompanhe. O 37ºC pode virar 39ºC.

Entrevista com Dudu Bertholini: "Nenhuma das iniciativas sustentáveis gera menos impacto do que usar o vintage"

Dudu Bertholini é um stylist com muita personalidade, daqueles que você identifica em trabalhos mais autorais - ou você identifica certa inspiração, se não for styling dele… Lembro que me senti muito burro por não ter ido no primeiro desfile da Neon, a marca que Dudu teve com Rita Comparato (hoje à frente da ótima Irrita), que foi no teatro Oficina. Tanto que fui em praticamente todos os outros, porque eram sempre os desfiles mais comentados do SPFW, empolgantes, dramáticos, divertidos.

Nessa estreia na Casa de Criadores da Ahlma de André Carvalhal, Dudu foi convidado pela marca para, adivinha só, criar um desfile vintage. São peças únicas garimpadas que receberam interferências de dois criadores muito marcantes da turma dele, Vanessa Monteiro e Fabio Kawallys. Tudo a ver com o que eu falei no fim desse post super recente! Mas o Dudu pode explicar melhor do que eu, claro.

07-03-19 Casa de Criadores 021.JPG

Dudu e André Carvalhal no backstage

Foto: Paulo Cândido

Dudu: A Ahlma, muito mais do que ser uma marca, é uma plataforma de boas práticas, de sustentabilidade, de uma moda com propósito, de uma nova consciência. E aí me chamaram para fazer um desfile 100% vintage, feito a partir de upcycling de peças que já existiam. A gente entende que o maior valor disso, muito mais que despertar o desejo por essas peças, é fomentar essa consciência, fazer com as pessoas queiram fazer essa customização em casa, olhar para aquilo que já foi produzido em excesso para que todos nós pudéssemos nos vestir por muitos anos ao longo da história! E nenhuma das iniciativas sustentáveis gera menos impacto do que usar o vintage. 

07-03-19 Casa de Criadores 015.JPG

Letrux estava no casting do desfile

Vermelhou sempre ;) Foto de Paulo Cândido

Wakabara: Onde vocês encontraram as roupas?
D: A gente trabalhou primordialmente com peças da ASA, que é a Associação Santo Agostinho e faz um trabalho social muito legal de muitos anos ajudando idosos, crianças e adolescentes. Compramos as peças deles, ressignificamos e assim também trazemos visibilidade para eles. E aí chamei Fabio Kawallys, rainha da customização tropical punk antes de todas, e Mística Selvagem Vanessa Monteiro - temos uma história de colaboração de 20 anos de roupas de brechó

W: Sim, eu lembro!
D: Você lembra bem, ela de maiô jeans, precursora! Nós que já somos vintage (risos), há 20 anos já usando vintage, nos juntamos nessa aventura, o que também é muito especial, colaborar criativamente depois de tanto tempo.

Em primeiro plano, da esq. pra dir.: Vanessa Monteiro, Mãeana (que cantou a trilha ao vivo com músicas da Xuxa), André Carvalhal, Fabio Kawallys, Dudu Bertholini (Foto: Paulo Cândido)

Em primeiro plano, da esq. pra dir.: Vanessa Monteiro, Mãeana (que cantou a trilha ao vivo com músicas da Xuxa), André Carvalhal, Fabio Kawallys, Dudu Bertholini (Foto: Paulo Cândido)

W: E a edição do desfile?
D: É uma edição solta, que prioriza a individualidade, mas acho que a gente tem um tom de casualidade; são camisas, camisetas, moletons, com paletós mas usados de forma relaxada; uma pegada cotidiana. Temos signature piece também - uma saia do Dener [Pamplona de Abreu], por exemplo, que virou um look punk. Existem highlights mas no geral são peças casuais, que você poderia encontrar em qualquer lugar e que ganham vida a partir do upcycling. É essa a grande mensagem.

W: E essa saia do Denner você encontrou na ASA?!
D: Não, essa é do acervo de Mística Selvagem; mas na Associação tem Burberry, tem doações muito babado. As peças não são tão baratinhas, tem uma triagem, higienização... Mas sob a nossa ótica, a gente incentiva que a pessoa abra o olhar para todos e quaisquer valores, talvez aquela peça que está ali na bacia de R$ 1 é a que mais precisa de uma ressignificação.

W: Claro, e sem etiqueta nenhuma…
D: Exatamente.

Fotos: Paulo Cândido

W: Esse novo uso do vintage, com passarelas apresentando roupas novas que parecem vintage - na minha leitura o segredo está no exercício do styling. Ou seja: a passarela agora mostra styling?
D: A moda é um reflexo do mundo e a passarela é um reflexo da moda. A gente está falando de uma moda que quebra padrões, com esse papel no presente e no futuro de desmontar essas regras e padrões para que todos nos sintamos incluídos. E essa quebra tem que estar na passarela. Quando começamos a colocar um exercício que diz assim: "Ter estilo é a melhor ferramenta de sustentabilidade”, não vai ter revista alguma que vai dizer "use este blazer". Ela vai defender que você tenha essa visão de que aquela peça pode virar algo nas suas mãos. Existe um exercício de independência, de autoria em cima do look, que é muito corajoso a moda se dispor a fazer. E não é só a Ahlma, todo mundo está falando isso. Então a gente está aqui propondo: você vai consumir o que você tiver desejo mas não estamos aqui para impor regras do que você tem que usar; estamos aqui para criar um cenário que fomente sua individualidade. Desde Gucci até Versace, você tem um mercado inteiro passando essa mensagem. Como é que você vai andar na rua e ter um look que se diferencia dos outros? Existe uma camada individual em cima disso que ninguém pode ter dar, só você pode desenvolver, e esse desfile é um exercício a favor disso.

W: E você acha que o trabalho de styling mudou por causa disso?
D: Acho que não dá mais para dizer o que é styling e o que é direção criativa. E não dá mais para dizer o que é uma tendência e o que é um rumo para onde o mundo está indo. É um novo lugar para o stylist sim, é um novo momento de pensar o styling.

Esse post e a minha cobertura da Casa de Criadores traz fotos do super Paulo Cândido: sigam o Paulo no Insta

Para complementar esses pensamentos, sugiro o vídeo novo da Ale Farah (que inclusive cita esse desfile e é superamiga do Dudu):

E esse vídeo que fiz com a Lilian Pacce faz mais de um ano já falando do mercado de revenda: