Dois filmes no Instituto Moreira Salles completamente diferentes: mas então por que vejo ligação?

Bara no Sôretsu (1969), que chama O Funeral das Rosas no Brasil, é um filme que ganhou um monte de fãs por ser bem peculiar: tem uma estrutura à nouvelle vague (tanto que alguns o chamam de nouvelle vague japonesa) com direito a momentos cartunescos (balões de fala, fast forward), outros documentais, outros com belíssima fotografia. Essa cena é TUDO:

Funeral Parade of Roses (Bara no soretsu), by Toshio Matsumoto. Nouvelle Vague. Japan, 1969

Entre outras coisas, o longa de Toshio Matsumoto ficou conhecido por ser uma enorme fonte de inspiração para Laranja Mecânica (1971), como fica explícito nesse vídeo:

https://cine-scope.com/2015/07/09/films-in-dialogue-a-clockwork-orange-vs-funeral-parade-of-roses/

O próprio Stanley Kubrick confessava a inspiração, apesar dos longas terem tão curto tempo entre o lançamento de um e outro.

Mas o que mais chama a atenção (pelo menos para mim) nesse O Funeral das Rosas é o retrato das mulheres trans e da cena noturna LGBTQ do Japão naquela época. Se o preconceito racial no país, como falei nesse post, já é forte, imagina a LGBTQfobia? É uma doideira.
No Japão (e na verdade, pelo que sei, em grande parte da Ásia), um homossexual afeminado é um pouco mais “aceito” do que um homossexual mais masculino. É um raciocínio meio tortuoso e que para nossa lógica ocidental fica ainda mais difícil de entender: “melhor que não nos engane”. Enganar quem, né, cara pálida? Eu hein. Também acho que a heteronormatividade vê a feminilidade como algo menos ameaçador. Nessa toada, faz sentido a retratação da transexualidade, ainda mais se elevada ao status de arte. Se fossem só homens gays na trama, talvez o filme seria impossível de ter acontecido!

Olha o vinil com floral da gata! Nos cartazes, Édipo Rei de Pasolini - a trama do filme é inspirada nessa tragédia

Olha o vinil com floral da gata! Nos cartazes, Édipo Rei de Pasolini - a trama do filme é inspirada nessa tragédia

A boa notícia é que na programação desse mês do Instituto Moreira Salles de SP está O Funeral das Rosas! Boa oportunidade de ver o longa na telona, hein?

Outro filme que também está em cartaz no cinema de lá e que assisti é o cearense Inferninho, de 2018.

Queer Lisboa 22 Queer Art Competition Director: Guto Parente, Pedro Diogenes Brazil, 2018, 82' Feature Film Deusimar is the owner of Inferninho, a dark and run-down bar that is a refuge of dreams and fantasies. Her dream is to leave everything behind and go away to any distant land, as far as possible from that place.

Um se passa em Tóquio, outro em Fortaleza. Ambos mostram um mundo underground e noturno, personagens extravagantes (o coelho do Inferninho é uma pérola, a cantora Luizianne é outra), protagonista transexual e asiática. Yuri Yamamoto é poderosa como Deusimar, a dona do Inferninho em questão, e ao mesmo tempo tem a prosódia cearense, uma combinação de humor zombeteiro e máscara trágica que culmina em complexidade, uma personagem palpável e humana. E o longa Inferninho em si também tem características experimentais, guardadas as devidas proporções, especialmente no fim. O roteiro, mesmo não se prendendo a nenhum gênero, consegue envolver. Não é muito realista, mas acredite: no geral a ficção é uma mentira que dá certo.

Não é um filme para todos os paladares. Mas foi para o meu.

O marujo Jarbas (Demick Lopes) e Deusimar (Yuri Yamamoto)

O marujo Jarbas (Demick Lopes) e Deusimar (Yuri Yamamoto)

Confira a programação de cinema do Instituto Moreira Salles nesse link! E prestigie não só o cinema comercial, vá também assistir a filmes do circuito alternativo - é legal, é diferente, abre a cabeça e o coração. Essa foi a dica do He-man de hoje - tchau!

(e obrigado Camila Barros pela dica de filme! adorei!)