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Pulgasari, o Godzilla norte-coreano

August 09, 2020 by Jorge Wakabara in cinema

Você conhece a história do Shin Sang-ok e da Choi Eun-hee? É uma loucura. Kim Jong-il, quando ainda era o filho do ditador norte-coreano e não o ditador em exercício, tinha um sonho: fazer filmes. Ele curtia muito esse mundo do cinema e queria uma produção cinematográfica de qualidade na Coreia do Norte, mas sabia que, para isso, ia precisar de "ajuda” de fora. Então decidiu sequestrar Sang-ok e Eun-hee, um casal de diretor e atriz sul-coreanos que já fazia muito sucesso na Coreia do Sul!

A história toda é contada no documentário Os Amantes e o Déspota, lançado em 2016.

Kim Jong-il no centro, com o casal que ele queria que melhorasse a indústria cinematográfica norte-coreana

Kim Jong-il no centro, com o casal que ele queria que melhorasse a indústria cinematográfica norte-coreana

Só que os dois já estavam separados quando tudo aconteceu – Sang-ok era mulherengo, teve uma amante na cara dura e todos sabiam. Eun-hee foi convencida primeiro a ir pra Hong Kong, em janeiro de 1978. De lá, a sedaram e levaram pra Pyongyang. Sang-ok, que seguia amigo dela apesar de divorciado (e ela era a mãe dos filhos deles, eles tinham um casal de crianças adotadas), diz que ficou preocupado com o desaparecimento e foi atrás dela em Hong Kong em julho. E também sumiu.

Sang-ok morreu em 2006. Eun-hee em 2018.

Durante o período em que ficou na Coreia do Norte, entre 1978 e 1986, Sang-ok dirigiu 7 filmes no país e funcionou como uma espécie de diretor de produção de mais 13. Tem quem ache que na verdade ele foi por livre e espontânea vontade porque achava que teria recursos à vontade para fazer os filmes que queria, e as coisas não iam muito bem em 1978 para ele na Coreia do Sul. De qualquer forma, ele e a ex-mulher "desertaram" em 1989, durante um festival de cinema em Viena, pedindo asilo na embaixada estadunidense.

Já existiam filmes norte-coreanos. Mas a qualidade era muito ruim – eram baseados em propaganda pró-regime, perdendo o poder da narrativa cinematográfica, sempre focados em "sacrifício para o Grande Líder" e coisas assim. Ou seja: eram medíocres. Então Kim Jong-il decidiu chacoalhar as coisas a partir de 1968, se metendo a produzir. Kkot Panum Chyonyo, por exemplo, impressionou tanto que ganhou prêmio em festival da Tchecoslováquia.

The ending scene from the movie adaptation of the Revolutionary Opera, the Flower Girl.

Propaganda por propaganda, o filme de Sang-ok de 1963, Ssal, falava das políticas do então presidente da Coreia do Sul, Park Chung-Hee, sobre modernização da agricultura. Mas depois disso a relação entre os dois azedou, a ponto de Sang-ok, em 1978, estar com a sua produtora cinematográfica proibida de funcionar a mando do governo. Portanto, Sang-ok não estava conseguindo filmar naquela época. Vem daí a desconfiança a respeito da veracidade de seu sequestro: tem quem ache que ele foi por livre e espontânea vontade.

For detailed information on this film, visit : https://www.kmdb.or.kr/eng/db/kor/detail/movie/K/00945 Directed by Shin Sang-Ok Casts : Shin Young-Kyun, Choi ...

Três coisas contam a favor de Sang-ok e sua história:
. Ele ficou sem filmar entre 1978 e 1983, tempo em que ele explicava que foi mantido em campo de concentração passando por lavagem cerebral para se tornar um aliado do regime.
. Existem fitas que supostamente foram gravadas em reuniões e ligações entre Sang-ok e Kim Jong-il. Elas serviram de prova quando Sang-ok e Eun-hee finalmente pediram asilo nos EUA. Tem quem ache que são forjadas. E o que Jong-il diz na gravação para provar que havia acontecido um sequestro é, no fundo, bem sutil: algo como “pedi para eles trouxessem vocês".
. Os filhos. Eles deixaram dois filhos para trás.

Mas existem pontos contra a versão de Sang-ok, fora o fato de que ele não estava fazendo filmes na Coreia do Sul e poderia fazer filmes na Coreia do Norte:
. Uma coletiva de imprensa no Karlovy Vary, festival de cinema da Tchecoslováquia (que existe até hoje, agora na República Tcheca), trouxe Sang-ok declarando que foi voluntariamente para a Coreia do Norte, ao lado de Eun-hee, e que qualquer jornal sul-coreano que falasse o contrário estaria mentindo.
. O diretor tinha muita liberdade de expressão. O título do segundo filme que dirigiu por lá, por exemplo, Sarang, sarang naesarang (1985), pode ser traduzido como Amor, Amor, Meu Amor. O termo é tabu em obras assim na Coreia do Norte. Amor? Só pelo Grande Líder, oras! Mas deixaram Sang-ok fazer essa provocação em prol da arte. Não parece um artista sendo forçado a fazer coisas por um ditador. O filme também traz o primeiro beijo do cinema norte-coreano (eita, que povo retraído).
. Eles filmaram uma parte das cenas de Sincheongjeon (1985) em Munique. Por que não desertaram nesse momento?

O que eu acho? Sei lá. Acho meio esquisito duvidar dessa história tão doida. Será que alguém realmente inventaria tudo isso?

No exílio nos EUA, Sang-ok dirigiu um filme. Era 3 Ninjas em Apuros (1995), da cinessérie 3 Ninjas. Ele o assinou sob o pseudônimo Simon Sheen.

Cena de 3 Ninjas em Apuros

Cena de 3 Ninjas em Apuros

Sang-ok voltou definitivamente com Eun-hee para Coreia do Sul nos anos 1990, apesar de seu medo de ser descreditado. Eles seguiram novamente juntos depois de se reencontrarem na Coreia do Norte até Sang-ok morrer.

Finalmente: Pulgasari (1985)!

Inspirado em kaiju e principalmente no Godzilla, o maior kaiju de todos, surgiu essa história de fazendeiros que se revoltam contra a decisão do rei de uma Coreia medieval de tomar-lhes as ferramentas de ferro usadas para o plantio e cozinha com o objetivo de fazer mais armas. Um ferreiro se recusa a fazer espadas com esses instrumentos e acaba devolvendo-os para os aldeões. O representante do rei, em represália, o prende e não lhe dá de comer até ele contar onde foi parar todo o ferro desaparecido. A filha dele consegue jogar arroz pela janela da prisão, mas no lugar de comer ele usa o arroz para moldar um monstrinho e implora aos deuses para que eles o ajudem a salvar a aldeia. Ele morre de fome.

O monstrinho vai parar na casa da filha do ferreiro. Ela fura o dedo costurando e deixa pingar sangue no monstrinho. Isso faz com que ele crie vida, comece a comer ferro e, quanto mais come, ele vai crescendo até se transformar no kaiju Pulgasari.
A história parece pueril e é, mas se a gente pensar nos efeitos especiais disponíveis naquela época e no próprio Godzilla, é bem feitinha. Eu, como gosto de Jaspion, achei o filme meio arrastado mas divertido e não me importei com os efeitos – acho até que dá um charme.

Pulgasari is a North Korean feature film produced in 1985, a giant-monster film similar to the Japanese Godzilla series. It was produced by South Korean dire...

Pulgasari também é inspirado em uma lenda que já existia na Coreia do Norte com o mesmo nome ou a variante Bulgasari. Já era um bicho que comia metal. A Toho, produtora japonesa responsável pelo Godzilla, ajudou nos efeitos especiais – quem usou a fantasia de borracha foi Satsuma Kenpachiro, que já tinha vestido a fantasia de Godzilla!

Kenpachiro usando a roupinha de Pulgasari

Kenpachiro usando a roupinha de Pulgasari

O filme virou cult, chegou a passar nos cinemas do Japão anos depois e apareceu em VHS nos EUA.
Tem quem enxergue uma metáfora negativa para Jong-il escondida em Pulgasari: o monstro representaria esse regime que ajudou mas depois se transformou em carrasco, exigindo mais e mais ferro do povo. Ao mesmo tempo, a história fala sobre o poder do coletivo oprimido contra o seu opressor.

Pulgasari foi o último filme dirigido por Sang-ok na Coreia do Norte.

Em japonês: PURUGASARI

Em japonês: PURUGASARI

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August 09, 2020 /Jorge Wakabara
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