O crowdfunding do próximo desfile da Vicente Perrotta!

Os desfiles da Vicente Perrotta são mágicos e fazem parte de algo maior. A estilista, cujo trabalho já acompanho faz um tempinho, não só dá visibilidade ao corpo trans no meio da moda mas também reconstrói o imaginário e procura ícones e referências imagéticas fora da lógica heteronormativa. Admiro demais e sinto que cada apresentação dela carrega uma simbologia que ultrapassa a roupa. Fora tudo isso, Vicente ainda faz um upcycling inventivo, disposto a desestabilizar regras, que também recontextualiza peças: camiseta vira pedaço de um vestido, calça vira blusa, e por aí vai. São imagens modernas, futuristas, contestadoras, herdeiras da cultura punk e do remix.

Portanto é com muito prazer e propriedade que divulgo o novo crowfunding dela para o próximo desfile da Casa de Criadores! Está no Kickante (acesse aqui) e tem diversas faixas de dinheiro e suas correspondentes recompensas! Eu já garanti minha pecinha da Vicente pois não sou bobo nem nada, mas também tem como colaborar e ganhar um top de crochê do Gustavo Silvestre, ou um All Star customizado pelo O Novíssimo Edgar e também, se você tiver só R$ 10, tudo bem: ganha agradecimento no Instagram, Facebook e em um vídeo-documentário.
É importante dizer que, ao ajudar, você não só está colaborando com esse trabalho de moda autoral e artístico mas também viabiliza o trabalho de um grupo grande de pessoas que inclui travestis, trans, não-bináries, profissionais colocados à margem por uma sociedade preconceituosa. E é um trabalho que levanta bandeiras importantíssimas, contra a transfobia, o higienismo social e a favor do fim do preconceito contra HIV positivos.

Imagem do último desfile na Casa de Criadores

Imagem do último desfile na Casa de Criadores

A estética do improviso

Não sei se ficou claro, mas existe o que alguns podem considerar crise estética em curso no mundo hoje.
* ALERTA POLÊMICAAA, ELA ESTÁ POLÊMICA HOJEEEE *
Acontece que não considero o que acontece de fato uma crise e sim uma disputa da apropriação de estética improvisada, a estética periférica que se vira com o que tem, uma mistura charmosa e irônica que o hipster adora (e de certa forma estraga) desde 2000 e pouco: sabe aquele boné Texaco, aquela camiseta de campanha política, aqueles óculos de abusador sexual que ninguém usa como Terry Richardson?

Hipster starter pack : qualquer coisa você diz que é uma ironia (e as metidas a cinéfila vão adorar a citação a  Nós  da camiseta…)

Hipster starter pack: qualquer coisa você diz que é uma ironia (e as metidas a cinéfila vão adorar a citação a Nós da camiseta…)

Porém o hipster não é de direita - salvo Pedro D’Eyrot, que é de direita sim. Quer dizer, tem a direita transante, é assim que eles se chamam? Ai, que vergonha, começo a acreditar na crise estética. Mas NÃO: é uma apropriação, é uma tentativa de ocupação de espaços. Num momento em que o presidente dos EUA usa o mesmo tom de bronzeamento Oompa Loompa de Jersey Shore e o presidente do Brasil (* suspiro *) faz uma coletiva em cima de uma prancha de bodyboard, bem, quer algo mais significativo que a estética do improviso sendo apropriada pelo movimento conservador? Digo, Donald Trump tem dinheiro o bastante para que seu bronzeado fique menos camp, mais David Gandy em uma propaganda da Dolce & Gabbana; Jair Bolsonaro sem dúvida pode conseguir uma mesa de mogno, quiçá mármore, para apoiar microfones em sua coletiva. Tudo leva a crer que as escolhas estéticas deles são intencionais e são montadas para parecerem improvisadas, parecem mais próximas do "gente como a gente".

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Desculpa incluir pessoa com o rosto tão horroroso aqui

É só para ilustrar… Desculpa mais uma vez

Porém não podemos deixar que isso aconteça. A estética do improviso é nossa, e não dessa galera do mal. Assim como o meme feio é nosso. O vaporwave, que eles também querem assimilar, é nosso. E o clipe da MC Loma e as Gêmeas Lacração de Envolvimento (o original) TAMBÉM É NOSSO!

Relembre essa maravilha, dê o play.

O improviso é um estímulo criativo, uma ode à liberdade, um convite à surpresa. Quando uso o termo, que se conecta às manifestações periféricas e portanto ao underground (em contraposição ao mainstream), de maneira alguma injeto carga pejorativa. Ao contrário: esse improviso é poderoso, audacioso, atrevido, o melhor "fazer do limão uma limonada"; bate de frente e por isso é ameaçador, e por isso existe uma tentativa de cooptação, assimilação para eventual anulamento de seu poder. Tenho receio em usar a palavra porque as pessoas podem ler como algo não muito pensado, destrambelhado - mas para o improviso é necessário pensar; o improviso não é o contrário do conceito, ele pode ser conceitual e, quando está na passarela, geralmente é conceitual, é também uma escolha.
Quando falo da estética do improviso, me refiro também a algo em alta agora na passarela mas que tem uma história rica e mágica, que remete ao cinema marginal dos anos 1960 e 1970 de Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e tantos outros, desbundado, escrachado e, apesar de à margem, com refrescante apelo pop. Remete também ao punk dos anos 1970, uma estética do it yourself que prenunciava o upcycling antes da existência da palavra. Remete ao exercício de styling encharcado de personalidade de Harajuku e da revista FRUiTS (falei um pouco sobre ela e sobre o bairro japonês nesse post aqui).

Na foto de cima à esquerda,  Ângela Carne e Osso , a inimiga nº 1 dos homens, personagem de  Helena Ignez  em  A Mulher de Todos  (1969) de Rogério Sganzerla; na direita, a turma punk na época da  loja SEX  de  Vivienne Westwood  (que está na extrema direita de camisa), a curiosidade dessa foto é a cantora  Chrissie Hynde  mostrando o dedo do meio antes de ser a vocalista do  Pretenders ; na foto de baixo à esquerda, turminha montada de Harajuku

Na foto de cima à esquerda, Ângela Carne e Osso, a inimiga nº 1 dos homens, personagem de Helena Ignez em A Mulher de Todos (1969) de Rogério Sganzerla; na direita, a turma punk na época da loja SEX de Vivienne Westwood (que está na extrema direita de camisa), a curiosidade dessa foto é a cantora Chrissie Hynde mostrando o dedo do meio antes de ser a vocalista do Pretenders; na foto de baixo à esquerda, turminha montada de Harajuku

Na entrevista que fiz com Dudu Bertholini na ocasião do desfile da Ahlma na Casa de Criadores, ele comentou sobre esse styling que valoriza a individualidade dentro da diversidade e, de quebra, pega a roupa que já existe e a desconstrói, às vezes customiza mas principalmente a recontextualiza e com isso lhe dá uma nova carga de alta voltagem fashion. Esse é um movimento da moda que já começou com os desfiles da À La Garçonne, com a febre com cara de brechó (mas usando roupas novas) da Gucci de Alessandro Michele - porém esses exemplos são mais, digamos, sem arestas, redondinhos demais para se contaminar com a energia explosiva da improvisação.

Mais exemplos? As propostas da estilista Vicente Perrotta, antes mesmo dela entrar na Casa de Criadores - curiosamente, o desfile dela da última edição do evento não tem tanta carga pós-apocalíptica mas continua seu trabalho incrível de upcycling e de estabelecimento do corpo trans como um corpo que também deve ocupar um espaço na moda, que também é fashion e que, acima de tudo, não precisa engolir estéticas do padrão cis-heteronormativo.

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Desfile Transclandestina 3020 de Vicente Perrotta

Poesia na escadaria da Praça das Artes durante a Casa de Criadores. Foto: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Falando em CdC, nessa edição que aconteceu há algumas semanas a gente viu exemplos em maior ou menor grau dessa estética, mas numa quantidade sem dúvida elevada. Vai desde o upcycling mais polido da Re-Roupa de Gabriela Mazepa até a P.O.T.E., marca da Estamparia Social que capacita egressos do sistema penitenciário e pessoas em situação de rua no ramo da moda e de personalização de produtos (canecas, cinzeiros etc.). A P.O.T.E. fez desfile intenso unindo forças de gente como o multiartista O Novíssimo Edgar, o estilista Gustavo Silvestre (do incrível Projeto Ponto Firme) e o artista Renan Soares - a apresentação fala sobre a realidade e a dificuldade do preso, a visita íntima, a marginalização de um ser humano mesmo quando ele está cumprindo sua pena e portanto no caminho para uma teórica readmissão na sociedade. Esteticamente esse e outros desfiles se incumbem de mostrar que a diversidade de corpos, etnias e sexualidades também passa pela diversidade humana: cada um é um, e por isso as propostas de moda não deveriam corresponder a essa realidade? Cabe, nessa dinâmica, a padronização e consequente uniformização?

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Streetwear com muita personalidade e cor

P.O.T.E. na edição 45 da CdC. Foto: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Mas acredito que o exemplo maior da estética do improviso está com as Estileras, que em um dos dias do evento ocuparam um espaço às vistas do público na Praça das Artes e montaram o desfile assim, com todo mundo observando - performance, humor e energia. Entrevistei Ricardo Boni, uma das metadas da Estileras com Brendon Xavier, com a jornalista Giuliana Mesquita (que aliás escreveu textos sobre os desfiles para o site da Casa de Criadores, vai lá prestigiar!). Confira após a foto!

Estileras na 45ª Casa de Criadores: a estreia da dupla no evento. Foto: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Estileras na 45ª Casa de Criadores: a estreia da dupla no evento. Foto: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Mesquita: Explica para a gente o que é que vocês estão fazendo?
Boni: Estamos apresentando os manuais Estileras, e hoje apresentamos o manual de como apresentar um desfile: montamos nosso backstage fora e expomos o processo. Todas as roupas são de brechó e a gente produz tudo na hora, não fizemos nenhum look antes. Começamos ao meio dia e vamos ficar trabalhando aqui até às 19h, que é o horário do nosso desfile.

Wakabara: Ou seja, é um processo mais de mostrar styling do que fazer roupa?
Boni: Exato.
Mesquita: Mas também estão pintando, fazendo outras coisas…
Boni: Isso. A nossa brisa é se apresentar como a primeira marca de moda do Brasil que não se importa com moda! [Risos] Por isso que a gente abriu nossos bastidores, a gente está fudidamente incerta! [Risos] Também criamos algumas coisas no virtual - se você acessar esses QR codes [impressos e expostos] dá para acessar o perfil de todo mundo que está dentro da performance. Tem umas fotos novas que produzimos para essa ocasião. E se vocês entrarem nos stories do Instagram e procurarem Estileras no gif, tem as estampas que eles estão fazendo em gif! [só para vocês saberem, os gifs continuam lá e são ÓTEMOS, dá uma olhada!]

Wakabara: O que são as Estileras? Se uma pessoa chamar vocês para fazer um projeto, o que vocês vão fazer nesse projeto?
Boni: Somos uma dupla de artistas, eu e a Brendon, que vimos um caminho na moda mas começamos a descobrir que o meio era a mensagem. Então não era simplesmente produzir uma roupa que tivesse signos; a produção deve ser os signos que queremos que sejam comunicados. Por isso queremos mostrar o processo, falar das etapas. Somos artistas tentando resolver os problemas apresentados, tanto para a arte quanto para a moda. Temos o nosso lema que é aquele meme: “a moda quem faz são vocês". É livre, você faz na hora, é para se virar, é para reutilizar, é sobre aproveitar mesmo, aproveitar rasgo... Tudo que aparece de errado você aproveita: uma mancha é uma estampa. Repense tudo. Essa é a nossa posição como artista brasileiro. A precariedade das infraestruturas cria isso, a gente vai ter que aceitar esse erro, a gente vai ter que aceitar esse rasgo para que possamos continuar fazendo. O erro é só mais um caminho a ser seguido. Fiz toda a produção dessa performance e desfile, fizemos o conceito, os textos de divulgação, as fotos. Somos financeiro, administração… [Risos] E propomos outros meios de ver o mundo.

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Mesquita: Vocês vão vender as roupas depois?
Boni: Sim. Temos o patrocínio da Ahlma, eles ajudaram com uma parte do financiamento do projeto e deram total liberdade, foi incrível. Então talvez tenhamos esse caminho mas ainda está tudo indefinido. Ainda não entendemos como as roupas vão ficar para saber como a gente se posiciona com elas [a entrevista foi feita antes do desfile acontecer]. É que a roupa é o final das coisas, e a gente fala mais do processo. Criamos todo esse meio, essa estrutura, para conseguir falar do que queremos.

Mesquita: São quantas pessoas participando?
Boni: 30 no total. Fizemos o look de todo mundo, mas os principais são de 10 pessoas. E eu também queria comentar que para a gente é muito importante a união, de verdade. A coletividade geralmente fica no crédito final, mas para a gente são rostos com links, ninguém é só esse "ao vivo”, temos que explorar isso.

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

E para quem ficou preocupado, bravo ou triste com o conservadorismo querendo se apropriar da estética: fique tranquilo.
Eles são intrinsicamente cafonas. Nós temos a liberdade de sermos cafonas por opção.
<3

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Mas então a febre country é real?

Um dos primeiros posts desse blog, lá em maio, brincava com o fato de que o country tinha voltado. Mas, menina… e não é? Escute os sinais. Além de tudo aquilo que de fato falei naquele post, tem mais, contando certo movimento de country rap (!) com um interessante artista chamado Lil Nas X que, em pouco tempo, trouxe Billy Ray Cyrus (sim, ele mesmo, o pai da Miley) de volta às paradas e ao mesmo tempo saiu do armário. Eita!

Nesse clipe já tem a versão “atualizada", que conta com Billy Ray e Diplo, mais um sample de Nine Inch Nails (quem diria); e Lil Nas brinca com essa coisa de se vestir de caubói hoje. O hit é um fenômeno que está faz 14 semanas na parada da Billboard. O segredo: além de juntar o trap com o country, a música virou desafio no aplicativo fenômeno TikTok. Misturas explosivas.

Na passarela em si, durante a Casa de Criadores, a gente viu sinais bem calcados da mistura do street com o country. Você reparou? Vem:

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Clube Irmã Caminhoneira

Franjas e jeans na Ken-gá. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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Franja do sertão

A leitura da seca sertaneja de Jal Vieira passa por franjas na bolsa e muita cortiça e navalhados. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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Para dançar isso aqui é bomber

As jaquetas de Rafael Caetano ganham recortes e franjas country. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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These boots are made for walking

Os romeiros de Rober Dognani usam bota de caubói. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Mais do que um country rústico à Marlboro, esse novo country está mais conectado com a ostentação de Nudie Cohn. Sabe quem é ele? Talvez um dos estilistas ucranianos mais famosos de todos os tempos, Nudie chegou nos EUA aos 11 anos e é um selfmade man. Nudie's Rodeo Tailors é parte essencial da estética da música popular americana!

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A estética de Nudie é superinfluente até hoje, do look de Diplo naquele post anterior até Elvis Presley em si.

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We are golden

Lookinho discreto: esse é o Nudie Cohn com Elvis Presley em si, na seção de fotos da capa do álbum 50,000,000 Elvis Fans Can't Be Wrong

Quer mais? Pois não:

Essa prática de aplicação de bordados tem tudo a ver com o movimento de upcycling e customização que volta à cena agora, na necessidade de uma imagem fashion para a sustentabilidade. Os recortes de camisa de caubói também me parecem uma boa opção para reaproveitamento de resíduo têxtil.

O country, um dos símbolos do conservadorismo, tem sido colocado de cabeça para baixo. Kacey Musgraves, por exemplo, ganhou um Grammy incluindo coisas em sua música que aparentemente não passariam incólumes num rodeio. Ela tem sido encarada como mais uma para quem não conhece tão bem seu trabalho, e não deveria… Você fica sabendo mais sobre Kacey nesse link, num ótimo artigo do The Guardian. E olho também na Kesha, outra que usa o country como ferramenta para mensagens de igualdade e quebra de padrões.

Nudie morreu mas seu legado continua vivo, principalmente com sua neta Jamie Nudie. Saiba mais no vídeo abaixo, da Vice:

E resumindo: em caso de sensação febril, acompanhe. O 37ºC pode virar 39ºC.

Rober Dognani na Casa de Criadores: uma questão de fé

Tem desfiles que não servem necessariamente para propor roupas e jeitos de usá-las. É outra coisa, e é importante, e azar de quem veio só para ver tendencinha.
O desfile de Rober Dognani na Casa de Criadores foi um desses que desafiam essas regras.

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

O assunto religião e fé sempre foi muito atraente para mim. Fui criado no catolicismo mas nunca realmente me empolguei com o ritual da missa nem com alguns dogmas, mas outras coisas eram extremamente potentes: o amor incondicional de Jesus (uma das minhas músicas preferidas da vida, é sério, é aquela "amar como Jesus amou / sonhar como Jesus sonhou…”); a questão da atenção para as minorias (o que me incomoda é a necessidade de apontá-las como pecadoras e convertê-las); a figura de São Francisco que renuncia sua vida de luxo para uma vida de doação (vi uma roupinha original de São Francisco na Sagrada Família em Barcelona e desabei a chorar); por aí vai.
Um dos meus sonhos é ir para Israel e para Istambul, e muito disso vem de querer entender melhor a cultura judaica e islâmica de perto porque ainda acho que tenho uma noção muito caricatural por falta de conhecimento.
E finalmente, para quem não sabe, antes de casar no civil eu casei com meu marido perante os olhos de Buda em cerimônia bem íntima no Japão. Não sou budista, na verdade acho que sou meio sincrético, meio agnóstico, meio sei lá. As religiões que mais me sinto simpatizante são as de origem asiática e as de matriz africana. Mas não pratico nenhuma.

E perante todo esse cenário, uma das coisas que mais me chocou nesse assunto foi o chute que o pastor Sérgio von Helder deu na imagem da Nossa Senhora Aparecida em cadeia nacional no mês de outubro do ano de 1995. Ali, materializava-se a imagem de uma religião conservadora, agressiva e intolerante que hoje ganhou tanto poder no país que, adivinha, está no poder.
É importante salientar que ao pregar um mundo sem preconceito, é bom não repetirmos frases feitas sem pensar. Quando falamos em evangélicos, costumamos abarcar tudo num mesmo pacote. Só que não é bem assim: existe todo tipo de crente (assim como existe todo tipo de católico); e para deixar a situação ainda mais complexa existem várias igrejas diferentes, com graus muito diversos de tolerância, com cabeça mais ou menos aberta, de perfis mais ou menos agregadores. Então não gosto quando as pessoas ouvem a palavra "evangélico” e automaticamente torcem o nariz. Mesmo porque conheço pessoas incríveis que são evangélicas.

Porém, sim, quando o pastor chutou a santa, eu fiquei TITICA com os evangélicos.

O desfile de Rober é uma criação mais artística e performática do que fashion em sua concepção - apesar de também mostrar roupa sim, e como teve colaboração de Felipe Fanaia, seu parceiro na loja Das Haus, funciona um pouco como um desfile da Das Haus, uma amostra do que você pode encontrar nas araras (e na alma das marcas). É, ao mesmo tempo, um desfile muito pessoal pois Rober é devoto, vai a Aparecida todo ano e ele passa por um problema delicado de família - a apresentação é uma demonstração de fé que parte do caso dele e vai para o universal.

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Milagre dos peixes

No começo, cardume impresso em tactel domina a passarela. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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Devoção

Ombreira de velas acesas. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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Cores fortes

E o oversize elevado à máxima potência. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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Leve tudo consigo

Os looks inspirados nos romeiros, que precisam carregar coisas consigo, também remetem à situação atual dos refugiados. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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Ex-votos

É o nome que se dá a essas esculturas, geralmente de madeira, que se faz de perna, coração, cabeça, demais órgãos e até casa, carro. Você dedica aquela peça em pedido ou agradecimento para o seu santo de devoção: cura de alguma doença, quitamento da casa própria etc. Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

E por fim ainda tinha a Nossa Senhora Aparecida em si para entrar na passarela.
Eu pensei: "Será que não vai ser literal demais? Será que não vai ser clichê demais?"
Tinha visto uma foto da prova de roupa no backstage e sei lá porque não tinha reconhecido.
Porque a Nossa Senhora era a Anna Luiah.

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

A primeira vez que falei com a Anna ao vivo foi na redação do site da Lilian Pacce. A gente fez um editorial juntos no qual eu acreditei demais e gostei demais do resultado. Ela arrasou - uma simpatia em pessoa, para cima, uma energia ímpar, uma fotogenia de babar.

A última vez que eu falei pessoalmente com a Anna não foi um dia tão feliz.
Foi no dia 27/04.

Como eu já falei um pouco anteriormente no meu texto sobre o desfile da Flavia Aranha, o fim do SPFW N47 foi muito difícil e simbólico - o dia 27 foi o dia da morte do Tales Cotta. Quando fui encontrar a Lilian no backstage da Cavalera para entregar a bolsa dela e ir embora, encontrei com a Anna no corredor. A gente se cumprimentou e ela percebeu que algo estava errado (claro, ninguém ali estava OK). Chorei e ela me consolou, foi muito importante o abraço dela naquele momento.

Tenho muito carinho pela Anna. Então para mim teve um gosto a mais, maravilhoso, vê-la como Nossa Senhora. Porque acima de tudo, e pelo pouco que a conheço, sei que ela é mais do que merecedora desse papel de destaque, e ela de certa forma funcionou como conforto para mim naquele momento difícil de entender.

A verdade é que ainda tem sido difícil assistir a desfiles e encontrar propósito neles depois disso tudo que aconteceu, e também depois de sair do site da Lilian e não sentir uma obrigação profissional de comparecer.

Um beijo carinhoso para o Rober - eu estava precisando de um desfile desses.

Deus não é acima de todos. Deus, ou esse complexo conceito, é para todos. E pronto.

Entrevista com Dudu Bertholini: "Nenhuma das iniciativas sustentáveis gera menos impacto do que usar o vintage"

Dudu Bertholini é um stylist com muita personalidade, daqueles que você identifica em trabalhos mais autorais - ou você identifica certa inspiração, se não for styling dele… Lembro que me senti muito burro por não ter ido no primeiro desfile da Neon, a marca que Dudu teve com Rita Comparato (hoje à frente da ótima Irrita), que foi no teatro Oficina. Tanto que fui em praticamente todos os outros, porque eram sempre os desfiles mais comentados do SPFW, empolgantes, dramáticos, divertidos.

Nessa estreia na Casa de Criadores da Ahlma de André Carvalhal, Dudu foi convidado pela marca para, adivinha só, criar um desfile vintage. São peças únicas garimpadas que receberam interferências de dois criadores muito marcantes da turma dele, Vanessa Monteiro e Fabio Kawallys. Tudo a ver com o que eu falei no fim desse post super recente! Mas o Dudu pode explicar melhor do que eu, claro.

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Dudu e André Carvalhal no backstage

Foto: Paulo Cândido

Dudu: A Ahlma, muito mais do que ser uma marca, é uma plataforma de boas práticas, de sustentabilidade, de uma moda com propósito, de uma nova consciência. E aí me chamaram para fazer um desfile 100% vintage, feito a partir de upcycling de peças que já existiam. A gente entende que o maior valor disso, muito mais que despertar o desejo por essas peças, é fomentar essa consciência, fazer com as pessoas queiram fazer essa customização em casa, olhar para aquilo que já foi produzido em excesso para que todos nós pudéssemos nos vestir por muitos anos ao longo da história! E nenhuma das iniciativas sustentáveis gera menos impacto do que usar o vintage. 

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Letrux estava no casting do desfile

Vermelhou sempre ;) Foto de Paulo Cândido

Wakabara: Onde vocês encontraram as roupas?
D: A gente trabalhou primordialmente com peças da ASA, que é a Associação Santo Agostinho e faz um trabalho social muito legal de muitos anos ajudando idosos, crianças e adolescentes. Compramos as peças deles, ressignificamos e assim também trazemos visibilidade para eles. E aí chamei Fabio Kawallys, rainha da customização tropical punk antes de todas, e Mística Selvagem Vanessa Monteiro - temos uma história de colaboração de 20 anos de roupas de brechó

W: Sim, eu lembro!
D: Você lembra bem, ela de maiô jeans, precursora! Nós que já somos vintage (risos), há 20 anos já usando vintage, nos juntamos nessa aventura, o que também é muito especial, colaborar criativamente depois de tanto tempo.

Em primeiro plano, da esq. pra dir.: Vanessa Monteiro, Mãeana (que cantou a trilha ao vivo com músicas da Xuxa), André Carvalhal, Fabio Kawallys, Dudu Bertholini (Foto: Paulo Cândido)

Em primeiro plano, da esq. pra dir.: Vanessa Monteiro, Mãeana (que cantou a trilha ao vivo com músicas da Xuxa), André Carvalhal, Fabio Kawallys, Dudu Bertholini (Foto: Paulo Cândido)

W: E a edição do desfile?
D: É uma edição solta, que prioriza a individualidade, mas acho que a gente tem um tom de casualidade; são camisas, camisetas, moletons, com paletós mas usados de forma relaxada; uma pegada cotidiana. Temos signature piece também - uma saia do Dener [Pamplona de Abreu], por exemplo, que virou um look punk. Existem highlights mas no geral são peças casuais, que você poderia encontrar em qualquer lugar e que ganham vida a partir do upcycling. É essa a grande mensagem.

W: E essa saia do Denner você encontrou na ASA?!
D: Não, essa é do acervo de Mística Selvagem; mas na Associação tem Burberry, tem doações muito babado. As peças não são tão baratinhas, tem uma triagem, higienização... Mas sob a nossa ótica, a gente incentiva que a pessoa abra o olhar para todos e quaisquer valores, talvez aquela peça que está ali na bacia de R$ 1 é a que mais precisa de uma ressignificação.

W: Claro, e sem etiqueta nenhuma…
D: Exatamente.

Fotos: Paulo Cândido

W: Esse novo uso do vintage, com passarelas apresentando roupas novas que parecem vintage - na minha leitura o segredo está no exercício do styling. Ou seja: a passarela agora mostra styling?
D: A moda é um reflexo do mundo e a passarela é um reflexo da moda. A gente está falando de uma moda que quebra padrões, com esse papel no presente e no futuro de desmontar essas regras e padrões para que todos nos sintamos incluídos. E essa quebra tem que estar na passarela. Quando começamos a colocar um exercício que diz assim: "Ter estilo é a melhor ferramenta de sustentabilidade”, não vai ter revista alguma que vai dizer "use este blazer". Ela vai defender que você tenha essa visão de que aquela peça pode virar algo nas suas mãos. Existe um exercício de independência, de autoria em cima do look, que é muito corajoso a moda se dispor a fazer. E não é só a Ahlma, todo mundo está falando isso. Então a gente está aqui propondo: você vai consumir o que você tiver desejo mas não estamos aqui para impor regras do que você tem que usar; estamos aqui para criar um cenário que fomente sua individualidade. Desde Gucci até Versace, você tem um mercado inteiro passando essa mensagem. Como é que você vai andar na rua e ter um look que se diferencia dos outros? Existe uma camada individual em cima disso que ninguém pode ter dar, só você pode desenvolver, e esse desfile é um exercício a favor disso.

W: E você acha que o trabalho de styling mudou por causa disso?
D: Acho que não dá mais para dizer o que é styling e o que é direção criativa. E não dá mais para dizer o que é uma tendência e o que é um rumo para onde o mundo está indo. É um novo lugar para o stylist sim, é um novo momento de pensar o styling.

Esse post e a minha cobertura da Casa de Criadores traz fotos do super Paulo Cândido: sigam o Paulo no Insta

Para complementar esses pensamentos, sugiro o vídeo novo da Ale Farah (que inclusive cita esse desfile e é superamiga do Dudu):

E esse vídeo que fiz com a Lilian Pacce faz mais de um ano já falando do mercado de revenda: